domingo, 26 de julho de 2015

Peça Teatral de Voltaire: "O Fanatismo" de "Maomé, o Profeta"



Olhando a Europa de hoje é difícil de acreditar que existiu uma época na qual o pensamento questionador fluía livre. Um exemplo disso é a peça teatral (tragédia em 5 atos) escrita por Voltaire em 1736 intitulada "O Fanatismo" ou "Maomé, o Profeta." Esta peça é um estudo do fanatismo religioso e da manipulação, baseado em episódios da biografia de Maomé no qual ele ordena o assassinato dos seus críticos. Voltaire descreve a peça como tendo sido escrita em oposição ao fundador de um culto falso e bárbaro. Com esta sua peça, Voltaire "tentou mostrar os horríveis excessos que o fanatismo inspirado em um impostor podem provocar nas mentes fracas."

A trama se desenrola aparentemente em um período em torno da conquista de Meca por Maomé. A peça indica o ano de 630. Um dos protagonistas é um líder de Meca, Zopir, que é um defensor implacável do livre arbítrio e liberdade, e por isso rejeita Maomé. Maomé, e seu comandante Umar, participam das conversas com Zopir. Zopir não sabe que Maomé havia sequestrado e escravizado seu filho Seid e sua filha Palmira quinze anos antes.

A filha de Zopir, Palmira, cresceu uma mulher muito atraente, e Maomé se encheu de desejos por ela. Contudo, Maomé percebeu que Seid e Palmira estavam apaixonados (eles não sabiam que eram irmãos). Maomé então planeja se livrar de Seid. Primeiro, Maomé doutrina Seid dentro do zelo religioso do islão, para depois enviá-lo a uma missão suicída para matar Zopir (claro, Seid não sabe que Zopir é o seu pai). Deste modo, Maomé iria se livrar de Seid e ter o caminho aberto para consumir Palmira. Maomé invoca autoridade divina para levar a cabo este plano.

Seid, que respeita o caráter nobre de Zopir, resiste a idéia em um primeiro momento, mas no final, a sua lealdade a Maomé o leva a assassinar Zopir. Após isso, um outro personagem, Phanor, revela a Seid e a Palmira que Zopir era o pai deles. Umar chega e manda prender Seid pelo assassinato de Zopir, mesmo sabendo que a ordem havia sido dada por Maomé. Maomé decide encobrir o fato para evitar de ser visto como o impostor e tirano que ele é.

Mas a situação fica mais do que evidente para Palmira, que rejeita Maomé bem como a sua religião, e prefere cometer suicídio do que cair nas garras de Maomé.


Bem, esta é a trama, mas Voltaire sabia bem quem tinha sido Maomé, bem como sobre o modo de operação do islão. Senão, vejamos.

  1. Maomé mandou mesmo assassinar aqueles que o criticavam (assunto tratado aqui e aqui). 
  2. A verdade sendo manipulada para encobrir os crimes de Maomé. 
  3. A doutrinação de um jovem para que ele participe de ataques suicídas, como feito com Seid. Temos registrado exemplos disto nos dias de hoje
  4. A perversão sexual de Maomé (assunto tratado aqui). 
  5. Sequestro e escravização. 
  6. E, por último, uma mulher que prefere se matar a cair nas mãos de um jihadista (Maomé) como acontece hoje em dia com as mulheres sequestradas pelo Estado Islâmico, que preferem a morte do que caírem nas garras dos jihadistas.



Não é a toa que Voltaire disse: "Aqueles que conseguem fazer com que você creia no absurdo, podem fazer com que você cometa atrocidades."


A peça foi representada várias vezes desde a sua première em 1741, sem problemas. Porém, da última vez que se tentou mostrar a peça, em 2005, a mesma foi cancelada devido a pressões dos muçulmanos e apologistas, e distúrbios de rua. A Europa mudou, para pior.


Referências:

Voltaire, Mahomet the Prophet or Fanaticism: A Tragedy in Five Acts, tradução de Robert L. Myers, New York: Frederick Ungar, 1964.

Muslims ask French to cancel 1741 play by Voltaire, Post-Gazzete.









segunda-feira, 20 de julho de 2015

Jihad contra a França (721 - 759)


José Atento
Porque será que os adeptos da "religião da paz" marcharam com seus exércitos 7.500 km pelo Norte da África, cruzaram o Estreito de Gilbratar, marcharam pela Espanha, cruzaram os Pirineus, e atacaram a França? Isso aconteceu no ano 721. E esta marcha não foi pacífica, para compartilhar a ilusória "sabedoria do Alcorão", mas sim marcada por guerras, destruição, pilhagem, estupro, e escravidão dos povos conquistados ao longo do caminho. (O que eles estavam fazendo tão longe de casa?)
A resposta a esta pergunta é simples. O islão não é da paz, mas sim uma ideologia político-religiosa que visa conquistar e subjugar os não-muçulmanos. Só existe paz com o islão com a rendição incondicional dos não-muçulmanos, sendo que estes ou se tornam muçulmanos ou se submetem à ordem política do islão. É assim desde o tempo de Maomé. É assim para sempre. 
Neste artigo, eu discuto eventos sobre o ataque da Jihad Islâmica contra o que nós chamaríamos hoje de França. Na época, era o reino dos francos, constituído por povos germânicos cristãos que deram origem ao povo francês.  

Quando os muçulmanos atacaram a França, o país era governado pelos francos. Os francos eram uma tribo gótica (germânica), que eventualmente se tornou no povo francês como o conhecemos hoje. Os francos eram relacionados a um outro clã gótico, os visigodos, que reinavam na Espanha quando as hordes islâmicas atacaram a Espanha. Os visigodos que fugiram para a França levaram consigo os contos de crueldade insensata dos muçulmanos, incluindo tortura selvagem, engano e subterfúgio, e crueldade brutal. Estes fatos serviram para endurecer ainda mais a determinação franca para derrotar os invasores muçulmanos.

Após a jihad ter pisado sobre a Espanha, em 711, o grande sonho do chefe muçulmano Emir Musa era o de marchar pelos Pirinéus, varrer a França, e se juntar aos muçulmanos saqueadores do leste através de Bizâncio (Constantinopla), de modo tornar o Mar Mediterrâneo um "lago muçulmano."

Porém, Musa também nutria secretamente a ambição de ser Emir da Europa independente do califa, para quem ele havia desviado uma parte desproporcional da riqueza obtida com a pilhagem durante a campanha da conquista espanhola. Isso levantou suspeitas do Califa  à cerca de Musa, o que levou ao seu banimento. Musa foi substituido por um outro saqueador jihadista chamado Abd-ur-Rahman, que conduziu a agressão muçulmana contra a França.

Uma observação, nesta época o "sucessor de Maomé" era o Califa al-Walid I, do Califado Omíada.

É sempre bom lembrar que invasão da França pelo Califado Omíada ocorreu 375 anos antes da Primeira Cruzada, 1055 anos antes da Independência dos EUA e 1227 anos antes da criação do Estado de Israel. Isso é para que ninguém venha com a desculpa esfarrapada que a Jihad é invenção dos EUA ou de Israel. Ou uma reação às cruzadas.

Enquanto que uma parte da jihad islâmica avançava pelo Oriente, atacando Constantinopla, a outra avançava pela Espanha rumo à França. O objetivo final era cercar o Mar Mediterrâneo e destruir o cristianismo. 

O mapa abaixo oferece uma visão geral sobre até onde os jihadistas conseguiram chegar, indicando as batalhas de libertação.



A invasão começa em no ano 719 quando os jihadistas muçulmanos invadem a Septimânia, uma das últimas regiões de refúgio dos visigodos espanhóis. A horde árabe-berbere, sob o comando de Al-Samh, seguiu norte conquistando Barcelona e entrando na Septimânia e conquistando Narbona. De 720 em diante, Narbona tornou-se a capital da Septimânia muçulmana, sendo usado como base para razzias (ataques ligeiros visando pilhagem e captura de escravos, seguindo o exemplo de Maomé). Uma mesquita foi estabelecida em Narbona, dentro da igreja de Sainte-Rustique.

Septimânia é a área em marrom

A rigor, a Septimânia não era território franco, mas sim visigodo. Porém, ela se tornou uma ponta-de-lança na jihad contra os francos, que se iniciou com a Batalha de Aquitânia, nas cercanias de Toulouse.

9 de junho de 721: Jihad Contra a França, Batalha de Aquitânia

Os exército omíada (sarraceno) cercou a cidade francesa de Toulouse durante 3 meses.  O Ducado da Aquitânia, sob a liderança do Duque Odo, liderando um exército formado por "romanos", bascos e francos, rompeu o sítio e derrotou o exército islâmico liderado por Al-Samh, que acabou morrendo na batalha.  Essa vitória não apenas rompeu o cerco de Toulouse, mas também bloqueou a primeira onda da jihad islâmica contra a França por mais de uma década.

Os Jihadistas voltariam a atacar a França em 732, ainda mais sedentos por sangue, pilhagem, e escravos

Durante a década de 720, Anbassa, quem substituira Al-Samh, sitiou as cidades de Carcassone e Nimes. Os massacres e destruição que afetaram  particularmente o vale do Rio Ebro e Septimânia,  desencadearam um fluxo de refugiados que encontraram abrigo principalmente no sul da Aquitânia através dos Pirineus e em Provence.

732: Jihad contra a França, Batalha de Bordéus (Batalha do Rio Garonne)

O novo governador das terras espanholas ocupadas pelos jihadistas, Abdul Rahman Al Gafiqi, atacou a cidade de Bordéus defendida por Duke Odo. A vitória dos jihadistas permitiu que eles partissem para uma pilhagem delirante, saqueando os ricos mosteiros do norte da Aquitânia, e seguissem para Poitier, onde muitas riquezas agardavam os vorazes pilhadores jihadistas, incluindo-se aí a Basílica de São Martins, em Tours. 

11 de outubro de 732: Jihad contra a França, Batalha de Poitier

Confiante na sua superioridade, Abdul Rahman Al Gafiqi, seguiu para o norte até se defrontar com um exército inferior em números de infantaria e cavalaria. Eram os francos, sob o comando de Carlos, Duque e Príncipe dos Francos. A ferocidade com a qual Carlos lutou contra os árabes invasores, e o emprego da sua arma pessoal, um machado em forma de martelo, lhe rendeu o título de "Carlos Martelo". Ao final da batalha, os jiahdistas foram derrotados e Abdul Rahman Al Gafiqi foi morto.

Hoje, podemos não perceber o significado da vitória dos francos (ou ferrenguis como os muçulmanos os chamavam) sobre os árabes, a poucos quilômetros ao sul de Paris. Se não fosse por esta vitória, a Europa como um todo poderia ter sido conquistada, tornando-se muçulmana, e a história da Europa e talvez a de todo o mundo teria sido muito mais ensangüentada e mais escura, como é o Oriente Médio de hoje.

Esta batalha também é conhecida como "tours" do verbo francês "virar." Sim, foi uma "virada da maré" e a primeira grande vitória dos "infiéis" contra os muçulmanos.

Esta batalha não terminou a jihad contra a França. Ela, porém, definiu um limite e uma tendência. Os francos não estavam poluidos pelo politicamente correto. Eles não estavam interessados em conversar ou negociar, nem em tentar entender quais podiam ser os motivos que estavam levando aqueles "pobres muçulmanos" invasores a cometerem tanta violência. Que a atitude dos francos sirva como lição histórica. Não é possível ser "bonzinho" com quem deseja eliminar o seu modo de vida e roubar a sua liberdade.

737: Jihad contra a França, Batalha de Avignon

Os árabes tinham ocupado a cidade de Avignon, em 734, depois de ter sido entregue a Yusuf ibn 'Abd al-Rahman al-Fihri, governador omíada de Narbona. Em 736, Carlos Martelo enviou seu irmão que cercou a cidade. Carlos Martelo estava se defrontando com uma segunda leva de jihadistas que estavam invadindo pelo mar. Avignon foi reconquistada em 737.

737: Jihad contra a França, Batalha de Narbona

A batalha de Narbona foi travada em 737 entre as forças de Yusuf ibn 'Abd al-Rahman al-Fihri, governador Omíada de Narbona, e um exército franco liderado por Charles Martel. O sítio que se seguiu foi quebrado quando reforços jihadistas foram enviados. Carlos Martel seguiu para interceptá-los, e o que se seguiu foi a Batalha do Rio Berre.

737: Jihad contra a França. Batalha do Rio Berre

Carlos Martelo interceptou os reforços, compostos por um contingente considerável de jihadistas enviados da Espanha ocupada (Al-Andalus), liderados por Uqba ibn al-Hayyay para aliviar o cerco de Narbona. A batalha resultou em uma vitória significativa para Martel, e serviu para impedir a expansão omíada para além dos Pirineus.

737: Jihad contra a França: Batalha de Nimes

Carlos Martelo fez uma limpeza na Septimânia, incluindo Nimes. Nesta campanha, ele também assegurou Agde, Béziers, Maguelonne e Montpellier. Ele destruiu as fortificações impedindo que elas servissem para os jihadistas caso eles voltassem.

Após esta campanha em 737, Carlos Martelo voltou pra casa. Narbona continuava sob o controle dos jihadistas omíadas. A reconquista completa ficaria à cargo do novo rei franco, Pepin, o Breve, filho de Carlos Martel.

752-759: Jihad contra a França: Sítio a Narbona

O novo rei Franco, Pepino, o Breve, empreendeu uma campanha para limpar a Septimânia, de uma vez por todas, de todos os traços jihadistas. O problema é que alguns nobres infiéis resolveram se aliar com os jihadistas por motivos geopolíticos: eles temiam o avanço dos francos. Isso tornou a tarefa de Pepino mais difícil, porém não impediu que o seu objetivo final fosse alcançado. Em 759, as tropas jihadistas árabes-bérberes se renderam e deixaram Narbona, ocupada por 40 anos.

Uma pausa aqui. Veja bem que os jihadistas se renderam e puderam deixar Narbona. Eles não foram executados! Esta era a "ética da guerra medieval" que os povos romanizados da Europa (como os francos) adotavam. Isso era o oposto da ótica jihadista que seguia o Alcorão, que diz que "pilhar é bom e justo" e o exemplo de Maomé, que se fez rico através da pilhagem.


Tropas muçulmanas deixam Narbona (Émile Bayard, 1879) 

Consequência

Pepino, o Breve, completou o trabalho iniciado por seu pai, Carlos Martelo, e pelo Duque Odo. O filho de Pepino, Carlos Magno, iria extender os limites do império franco para além da Septimânia e dos Pirineus, criando uma barreira entre o Emirado Omíada e a França. Esta barreira, uma área tampão conhecida como a "Marca (fronteira) Hispânica", iria se tornar um foco para a Reconquista da Península Ibérica.


Condados da Marca Hispânica


Lição da História

1. Quando jihadistas se encrustram em um lugar, fica muito difícil e custoso tirá-los de lá. Vejam bem, eles invadiram a Septimânia em 711, e apenas foram expulsos em 759, ao custo de vidas humanas e materiais. 

2. Não existe este negócio de "ser bonzinho" contra quem deseja destruir o seu estilo de vida e a sua liberdade. 

3. É importante que os infiéis sejam conduzidos por motivos éticos. Se cada infiél for olhar para o seu próprio interesse, ou pior, se aliar com jihadista, a luta se torna muito mais difícil. Vimos isso acontecer no caso de Pepino, o Breve. E vemos isso acontecer hoje com as elites européias, e a esquerda internacional, se aliando aos islamistas do mundo. Um outro exemplo é quando vemos ateus, cristãos e homossexuais se degladiando ... enquanto isso os muçulmanos devotos fazem a festa e penetram pelas beiradas. 


Bibliografia

Collins, Roger (1989). The Arab Conquest of Spain 710-797. Oxford, UK / Cambridge, USA: Blackwell. p. 213. ISBN 0-631-19405-3.

Fouracre, Paul (2000). The Age of Charles Martel. Pearson Education. ISBN 0-582-06476-7.

History of Jihad Against France, History of Jihad.


 Duke Odo







 Carlos Martelo












Pepino, o Breve











domingo, 19 de julho de 2015

O Alcorão: suas origens nebulosas e suas diversas versões


José Atento

Neste artigo, iremos ver que:
  1. A narrativa islâmica confirma que não existia nenhum livro chamado Alcorão quando Maomé morreu, mas apenas pedaços das “revelações” registradas oralmente ou em fragmentos escritos. 
  2. Os registros eram contraditórios em termos de número de tamanho e conteúdo. 
  3. Segundo a narrativa islâmica, o Alcorão foi compilado como livro vinte anos após a morte de Maomé. O califa da época, Uthman, mandou queimar todos os registros existentes de modo que a sua versão passou a ser a versão oficial. 
  4. Uma outra narrativa diz que o mesmo foi feito pelo governador do Iraque, Hajjaj ibn Yusuf, 60 anos após a morte de Maomé.
  5. Em termos históricos, a primeira edição escrita do Alcorão foi compilada em Bagdá, cem anos após a morte de Maomé.
  6. Existem hadices (ou seja, as próprias fontes islâmicas) que mencionam a falta de capítulos e versículos na versão corânica atribuída ao califa Uthman. 
  7. Existem diferenças entre os alcorões mais antigos que ainda existem, guardados em museus no mundo islâmico, bem como diferentes versões codex com conteúdo e número de capítulos e versículos diferentes. 
  8. E modernamente, existem duas versões em uso, a transmissão Warsh e a transmissão Hafs. 

Em primeiro lugar, vamos falar sobre o Alcorão segundo a crença islâmica. Depois disso, vamos falar sobre o Alcorão à luz da História.


O Alcorão segundo a crença e tradição islâmicas

O Alcorão, que significa "recitação", é um livro considerado sagrado pelos muçulmanos, que acreditam conter as palavras inalteradas da sua divindade, Alá. O que está escrito no Alcorão é imutável, único, literal, 100% correto e inquestionável. Tudo o que está escrito no Alcorão saiu da boca de Maomé (e apenas dela). O islão ensina que o Alcorão foi escrito antes do universo ter sido criado e que ele descansa em uma mesa de esmeralda situada à direita de Alá.

O Alcorão é um livro sem contexto. Em primeiro lugar, ele foi compilado fora de ordem cronológica. Em segundo lugar, as "revelações" que Maomé teve ocorreram ao longo da sua vida, atendendo às necessidades momentaneas de Maomé, e o contexto não é explicado no Alcorão. Para entender o contexto no qual o Alcorão foi "inspirado" é necessário ler a biografia e as tradições do profeta.

O primeiro capítulo do Alcorão é uma oração. Os demais foram compliados começando pelo maior capítulo e terminando com o menor capítulo. Ao final deste artigo você vai encontrar uma tabela que mostra a ordem cronológica dos capítulos do Alcorão, seguindo os eventos que ocorreram durante as supostas revelações à Maomé.

A tradição islâmica diz que o Alcorão foi preservado devido a algumas pessoas que foram capazes de decorá-lo, em todo ou em parte (tradição oral), e que fragmentos foram escritos em folhas ou cascas de árvore.

A tradição islâmica diz que o Alcorão foi compilado  pelo terceiro califa Uthman no ano 653 (21 anos após a suposta morte de Maomé). Segundo a tradição, os muçulmanos estavam começando a dizer que haviam várias versões do Alcorão. Uthman, como governante absoluto, recolheu todos os exemplares do Alcorão e encarregou um secretário de compilar uma versão única e padronizada. Assim que esta nova versão foi concluída, Uthman mandou queimar todo o material que constituía as fontes originais, e impôs a sua versão.

O que se alega Uthman de ter feito é muito suspeito. Por que ele queimaria as fontes originais se não pelo motivo de existirem variações nas narrativas corânicas?

Hoje em dia, muçulmanos se vangloriam de que o Alcorão não possui variações, tendo sido entregue da forma atual por Alá, quando na verdade, foi Uthman quem garantiu isso. Porém, conforme iremos ver adiante, existem várias versões do Alcorão.

Uma outra versão da tradição islâmica diz que o Alcorão foi compilado por Hajjaj ibn Yusuf, governador do Iraque, na década de 690 (mais de 60 anos após a suposta morte de Maomé). A narrativa é semelhante do que é atribuido a Uthman. O texto foi padronizado e todas as versões existentes foram queimadas. Hajjaj ibn Yusuf fez outra alteração importante. Ele adicionou acentuações diacríticas (acentos) para permitir ao leitor distinguir entre várias consoantes, e, deste modo, o texto poder fazer sentido. O interessante é que uma outra narrativa islâmica diz que foi Hajjaj ibn Yusuf quem introduziu a prática da leitura do Alcorão nas mesquitas.

O Alcorão é semelhante ao Novo Testamento em termos de tamanho.

O islão afirma que o Alcorão contém as próprias palavras de Alá, transmitidas para Maomé através do anjo Gabriel. Não se pode verificar isso em termos históricos. O islão também afirma que o Alcorão é desprovido de imprecisões científicas ou históricas. Bem, isto é facil de comprovar que não é verdade. (Isso será feito em outro artigo)

Mas o problema é que, como o Alcorão é considerado como perfeito pelos muçulmanos, não pode existir erro algum, pois isso indicaria um erro de Alá. De modo que os erros que existem no Alcorão têm que estar certos, mesmo que para tal a realidade dos fatos tenha que ser negada ou re-escrita. Ou seja, se um fato contraria o Alcorão, o fato está errado. Este é o motivo pelo qual o islamismo matou a lógica racional da "causa e consequência", substituindo-a por um pensamento dualísta.


O Alcorão à luz da história

No ano de 749, Damasco foi conquistada pelos muçulmanos xiítas, pondo um fim à agressiva dinastia omíada, a dinastia original dos árabes muçulmanos, e o soerguimento da dinastina dos abássidas. Os abássidas tomaram o seu nome de um tio de Maomé, al-Abbas, porque os seus descendentes haviam se revoltado contra o controle omíada. Sob os omíadas, os não-muçulmanos nos territórios ocupados foram relegados a um estado de escravidão. Os abássidas eram menos piores, desde que os povos conquistados pagassem os seus impostos. Os abássidas levaram a capital do califado para Bagdá.

A primeira edição escrita do Alcorão foi compilada em Kufu, nos arredores de Bagdá, em torno do ano 725 DC, ou seja, quase um século após a morte de Maomé (várias outras compilações seriam feitas após esta). É interessante (e irônico) que, à luz da história, a religião do islão nasceu em Bagdá, sob os xiítas.

John Gilchrist, estudioso em manuscritos antigos do alcorão, disse: "Os manuscritos mais antigos do Alcorão, ainda em existência, datam de cerca de cem anos após a morte de Maomé."


As diversas versões do Alcorão em existência

O fato é que, ao contrário do que muçulmanos e apologistas afirmam, existem várias versões do Alcorão. Por exemplo, o parágrafo seguinte vem do livro “Which Koran?: Variants, Manuscripts, Linguistics” escrito por Ibn Warraq, que trata exatamente da questão das várias versões, particularmente a “transmissão Warsh, encontrada no Oeste e Noroeste da África, e a transmissão Hafs, decorrentes de Kufa, e amplamente disponível através da edição egípcia padrão de 1924."
“Poucos muçulmanos percebem que existem vários alcorões em circulação no mundo islâmico, com variações textuais cujo significado, extensão e significado nunca foram devidamente examinados. Ibn Warraq tem aqui reunidos importantes artigos acadêmicos que abordam a história, a linguística, e as implicações religiosas dessas significantes variantes no livro sagrado do Islã. Em uma longa introdução, Warraq observa que a evidência histórica e linguística sugere que houve uma confusão considerável sobre o que deveria ser incluído no Alcorão no início dos anos da história muçulmana. Embora o califa Uthman tenha canonizado um texto específico cerca de quinze anos após a morte de Maomé, leituras variantes de certas passagens têm persistido até o presente. Isto pode ser visto nas discrepâncias entre as duas principais versões impressas do Alcorão disponíveis hoje (a transmissão Warsh encontrada no Oeste e Noroeste da África, e a transmissão Hafs, decorrentes de Kufa, e amplamente disponível através da edição egípcia padrão de 1924). Isso, aliado ao fato de que a literatura secundária muçulmana (os Hadiths) discute versos corânicos que não foram incluídos no Alcorão, e até mesmo a memória por vezes defeituosa de Maomé, indicam fortemente que o Alcorão não pode ser considerado uma revelação inerrante. Warraq organiza os artigos deste volume em subseções que lidam com a linguagem do Alcorão; poesia pré-islâmica e sua possível influência sobre a escrita do Corão; influências de fontes judaicas e cristãs e de Qumran (Manuscritos do Mar Morto); problemas de vocabulário obscuro e ortografia; leituras variantes em diferentes manuscritos do Alcorão; e questões em torno da biografia do profeta Maomé. Como uma ajuda visual, Warraq compilou um gráfico único e valioso de trinta e duas variantes do Corão encontrados em alcorões disponíveis no mundo islâmico, junto com observações sobre seu significado. Em profundidade ainda acessível a não especialistas interessados no Islã, o livro What Koran? levanta questões importantes sobre o livro sagrado do Islã.”
Ou seja, existem duas versões do Alcorão em uso!

Isso sem falar no manuscrito de Sana’a, Iêmen. Ele foi descoberto recentemente e é considerado como o manuscrito mais antigo (mesmo considerando as dificuldades para a datação do manuscrito, estima-se ele ser do final do século VII). O manuscrito de Sana'a contém texto diferente do usado hoje. O manuscrito de Sana'a é um tabu no mundo islâmico e o seu acesso para estudo é lacrado.

Além disso, existem diferenças entre os próprios manuscritos uthmânicos, guardados nos museus de Topkapi (Turquia) e Tashkent (Uzbequistão). Por exemplo, Behnam Sadeghi e Mohsen Goudarzi, estudiosos em manuscritos antigos do alcorão, ao compararem manuscritos antigos, como o de Sana'a, Topkapi ou Tashkent, vêm diferenças com o Alcorão árabe atualmente publicado, incluindo inúmeras inserções, edições e variações.

E tem mais. Além da “versão uthmânica padrão” contendo 114 capítulos, existe a versão codex ibn Masud com 113 capítulos, as versões codex Ubay e codex Abu Musa com 116 capítulos, e a versão Nurain e Al Wilaya com 188 capítulos, esta última ainda preservada na tradição xiiíta.

Os próprios hadices (ou seja, as fontes islâmicas) mencionam a falta de capítulos e versículos na versão corânica de Uthman (Muslim 2286; Muslim 3422).


Algumas questões curiosas

Existem algumas perguntas que eu me faço sempre que eu penso sobre o Alcorão.

A primeira é que Maomé nunca disse que as revelações deveriam ser escritas em um livro. Como é possível que Maomé, auto-proclamado “mensageiro para toda a humanidade”, nunca pensou na preservação da sua mensagem?

Como seria possível que todas as “revelações de Maomé” fossem preservadas, considerando que o próprio Maomé disse ter esquecido de algumas? (Sahih Bukhari 6:61:558)

Como conciliar afirmações oriundas das Tradições de Maomé (Suna) que afirmam que uma sura semelhante a at-Tawba, em tamanho e severidade, foi esquecida e perdida? (Muslim, Vol. 2, p.501)

Se existem tantas versões do Alcorão ao longo da história, inclusive hoje, como podem muçulmanos afirmar que o Alcorão impresso hoje é  o mesmo que está em uma mesa do lado de Alá?

E também, sendo o Alcorão um livro que contém uma história do seu desenvolvimento, incluindo nela a existência de várias versões, porque muçulmanos acusam os outros "livros sagrados" (como a Bíblia, por exemplo) de serem "corrompidos"? (É como jogar pedra no telhado do vizinho, sendo que o seu telhado é de vidro)


Bibliografia

Which Koran?: Variants, Manuscripts, Linguistics”, Ibn Warraq, 2008, Prometheus Books.

What the Koran Really Says, Ibn Warraq, 2002, Prometheus Books.

Jam' Al-Qur'an: The Codification of the Qur'an Text - A Comprehensive Study of the Original Collection of the Qur'an Text and the Early Surviving Qur'an Manuscripts, John Gilchrist, 1989, MERCSA.

Behnam Sadeghi, Mohsen Goudarzi, "Sana'a and the Origins of the Qu'ran", Der Islam, 2012

Chronological Order of the Quran, Wikiislam



Apêndice: 
Tabela com a ordem cronológica 
dos capítulos do Alcorão


Ordem Cronológica
Nome do Capítulo (Sura)
Número de versos
Local da "Revelação"
Ordem no Alcorão
1
19
Meca
96
2
52
Meca
68
3
20
Meca
73
4
56
Meca
74
5
7
Meca
1
6
5
Meca
111
7
29
Meca
81
8
19
Meca
87
9
21
Meca
92
10
30
Meca
89
11
11
Meca
93
12
8
Meca
94
13
3
Meca
103
14
11
Meca
100
15
3
Meca
108
16
8
Meca
102
17
7
Meca
107
18
6
Meca
109
19
5
Meca
105
20
5
Meca
113
21
6
Meca
114
22
4
Meca
112
23
62
Meca
53
24
42
Meca
80
25
5
Meca
97
26
15
Meca
91
27
22
Meca
85
28
8
Meca
95
29
4
Meca
106
30
11
Meca
101
31
40
Meca
75
32
9
Meca
104
33
50
Meca
77
34
45
Meca
50
35
20
Meca
90
36
17
Meca
86
37
55
Meca
54
38
88
Meca
38
39
206
Meca
7
40
28
Meca
72
41
83
Meca
36
42
77
Meca
25
43
45
Meca
35
44
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Meca
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